Eu aos 35

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Cheguei aos 35.

É um pouco como estar a meio do caminho: já estou a meio dos 30 e a meio caminho dos 40.

Tem sido uma viagem e tanto! Vale-me o optimismo, a força de vontade e a determinação (teimosia) em manter a fé num amanhã sempre melhor.

Para mim o copo está meio cheio o que não quer dizer que não tenha dias muito maus em lugares muito sombrios. Acredito que todos temos. Eu gosto de viver os meus virada do avesso, bem cá para dentro, mantendo sempre para mim que o amanhã vem sempre.

Aos 35 ainda sou criança e rir e brincar estão no topo das coisas que mais gosto de fazer. Vou alternando as brincadeiras entre as minhas e as delas, mas rir é mandatório.

Aos 35 anos ainda sou adolescente, com borbulhas e tudo, ainda acredito na Humanidade e no poder dos pequenos gestos. Acredito que é possível crescer e ser melhor e contagiar os outros com coisas boas numa cadeia sem fim. Ainda sinto borboletas na barriga quando uma coisa boa está na iminensia de acontecer e ainda tenho amigos que considero irmãos.

Aos 35 anos olho à minha volta e vejo que já sou adulta: tenho 3 filhas (3!), sou mãe hà 7 anos (!!!!), sou casada (quem me conhece sabe o quão improvável isto era!), tenho um emprego, uma casa, um carro e contas para pagar.

Faço por viver os meus dias no equilíbrio entre o que sou, o que quero e o que tenho e por princípio a minha consciência é um ovo. Ser justo é muitas vezes tomar decisões difíceis e, como a moeda tem sempre dois lados, para uns sou o dia, para outros a noite. Para mim sou só eu, inteira e una, e é tudo o que me interessa.

Já tomei muitas decisões más. Tomei ainda mais decisões boas. Aprendo sempre as minhas lições, embora me reserve o direito de achar que podia lá chegar por outros caminhos. Mas discordar e questionar também faz parte do caminho.

Tenho as minhas crenças, as minhas religiões e as minhas filosofias. Todas juntas dariam um Marianismo. Fica para mais tarde o meu manifesto!

Tenho muitas, muitas paixões. É como se o meu coração fosse uma bola de espelhos. Não é fácil viver com isto mas é intenso e cheio de sentido, pelo menos para mim.

Ainda tenho muita coisa para aprender e no topo da minha lista está aprender a ser menos fusional. Tenho para mim que se conseguir ser menos fusional, vou conseguir magoar-me menos e sofrer menos. Dizem-me que ser fusional é uma coisa boa, mas não é. É mais uma coisa que me torna diferente, me afasta e me faz sentir só.

Também devia aprender a encurtar a distância entre a razão e o coração. Faz-me tanta falta.

E vá que este ano, mesmo a tempo dos 35, aprendi uma grande lição de vida. Não posso escolher o que me acontece nem alterar o que me está destinado, mas posso seguramente escolher a forma como quero lidar com isso. E fiz a minha escolha: escolho não sofrer. E isso mudou tanta coisa!

Aprendi muitas outras coisas com pessoas absolutamente fascinantes e inspiradoras. Muitas delas que guardo e lembro com carinho tantas vezes. Quando for avó quero ser como as minhas avós.

Mas recuso-me a aprender a resiliência. É uma teima minha. Não serve, muda-se não se acostuma.

E cultivo com muito cuidado a assertividade. Faz-me tanta falta em certos momentos da minha vida como um bom punhado de coentros numa açorda.

Fiz muitos amigos tão importantes em fases determinantes da minha vida, que também me ensinaram muitas coisas, que me acompanharam e com quem vivi tanta coisa do hilariante ao dramático! Alguns deles foram com o tempo, com a vida e com as circunstâncias. Mas a todos guardo com muito carinho.

Ficaram alguns que ganharam outros estatutos. Ficaram as minhas metades. Vieram amigos novos. Qualquer dia já vão ser velhos!

Não sou uma pessoa preconceituosa, mas aprendi a avaliar as pessoas pela forma como expressam os seus sentimentos.

Tenho dificuldade em aceitar pessoas que se queixam, e queixam e queixam, e por mais que se queixem jamais dão um passo no sentido de tentar mudar uma migalha do que as apoquenta. Tenho dificuldade em aceitar pessoas a quem falta a humildade e que se acham melhores, mais inteligentes, mais bem sucedidas e mais bem tudo que todos os outros.

Se pudesse mudar a minha vida, não a mudava assim tanto. A verdade é que estou bem assim. Tenho tudo o que interessa, o resto são extras. O importante é ter gente, gente boa, por perto, é ter saúde para estar presente, é ver as crianças crescer saudáveis, e ter cama, comida e roupa lavada, é ter o coração cheio de coisas boas e poder amar.

E tenho sempre, sempre presente, que ontem já passou, o amanhã pode não chegar para mim, e hoje é tudo o que eu tenho. Por isso não gosto que fiquem coisas importantes por dizer ou por fazer. Não gosto de arrependimentos nem da sensação de ter ficado tanto por dizer.

E já passaram 35. Bem cheios de coisas boas e com coisas más qb.. Foi uma sorte. É uma sorte. O que vier a mais é ganho, uma dádiva, uma bênção.

E espero estar por aqui e ter-te também aqui.

A mais um ano!

E de caminho um grande Natal, de coração cheio.

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Presépio de Meias

A nossa mudança para a aldeia implicou mudar as crianças de escola e, como aqui não há colégios a Mafalda está na escola pública e as pequenas numa IPSS. Uma das grandes diferenças entre esta realidade e a que conhecíamos antes é, precisamente, o esforço que é pedido aos Pais. Nos colégios há um grande esforço financeiro mas a escola faz tudo, compra tudo, prepara tudo, acompanha o estudo dos alunos, corrige os trabalhos de casa, está tudo incluído na mensalidade (com muito poucas excepções).

Na nossa nova realidade o esforço não é financeiro mas sim de tempo: há um grande dispêndio de tempo (que tenho tanto ou menos que dinheiro!): os pais fazem tudo, preparam tudo, compram tudo. É preciso levar comida para os lanches, todas as semanas é preciso um novo material para um novo projeto, a festa de Natal também é feita pelos pais, e mais comida para levar. Vezes 3. É bom poder fazer parte da comunidade escolar e estar mais envolvida no quotidiano escolar das miúdas, mas há alturas em que as solicitações são tantas que atender a tudo passaria a ser um emprego a tempo inteiro. E eu, ao contrario de uma boa maioria desta comunidade escolar, já tenho um emprego a tempo inteiro, que me rouba o tempo para ser uma parte mais activa desta comunidade.

Um dos “desafios” desta quadra de Natal foi um concurso de presépios em que a Mafalda quis participar. É claro que ao fim de 7 anos a ver a mãe “fazer coisas” o monstro está mais do que criado (mea culpa) e não foi nada fácil escolher um projeto que fosse viável, em termos de tempo e de materiais que já tivéssemos em casa. Ela queria fazer uma coisa muito elaborada e eu entendi que o projeto deveria ser feito em grande parte por ela, mesmo que não ficasse elegível a prémio nenhum. Ela queria lã nos cabelos e panos nas roupas e claro que bonecos nasceram!

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Os bonecos foram feitos com meias de bebé que perderam os pares. Foi uma boa maneira de fazer desaparecer 6 meias sem par! A Mafalda encheu os bonecos com o enchimento de lã, cortou as rodelas de cartão na base e as respetivas rodelas de feltro e colou os olhos. Ainda a fiz coser os cabelos de um dos Reis Magos, só para ela perceber o trabalho que dá! É claro que ela não chegou a acabar mas ficou com a ideia do trabalho envolvido nisto, e sobretudo ficou com a ideia que a mãe não é nenhum mágico a tirar coelhos da cartola ou uma fada com uma varinha de condão que faz aparecer as coisas!

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E foi só pela insistência dela que o presépio teve direito a Reis Magos, porque por mim ficava-me só pela Sagrada Familia!

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Vá que até ficaram engraçados de tão patuscos que estão! Mas não dava para fazer 3 presépios, pois não?